Conjuntura Desconjuntada – desenho de Silvano Mello, poema de Clarice Villac

Silvano_Mello_julho2018

Conjuntura Desconjuntada

do alto do morro
o cidadão, atemporal
mergulha em sentimentos
traduzidos nos batimentos
musicais, ancestrais
do pulsar emocional
a ecoar persistente
em meio às injustiças
desproporcionais
ainda existentes…

.

desenho de Silvano Mello
poema de Clarice Villac

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Mais um dia – Müller Barone

muller_barone_jul.2018

Mais um dia
E, todavia,
Nada em dia.

Nada havia,
Na paixão tardia,
Um amor sem via,
Um coração que só batia.

Um corpo que ouvia,
Via, sentia, existia,
Mas não vivia.

Não havia o que ser,
Não era o que ter,
Não tinha o que haver,
Tudo era só estar.

Nada ali, nada aqui,
Nada lá, nada acolá.
Nada, de nada, por nada.

Em meio a tudo,
Contudo,
No dia, há nada,
Por tudo.

.

Poema e imagem de Müller Barone

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Setilha Pisciana – Clarice Villac

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Setilha Pisciana

Lua Nova, Caranguejo
sopro ao céu o meu desejo
Oxalá seja possível
que tenhamos o ensejo
reviver a harmonia
a suave alegria
daquele instante-beijo

.

Clarice Villac
11.07.2018
foto por Clarice Villac: pôr do sol em São Roque, SP, 07.07.2018.

Blind FaithSea of Joy

 

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Um daqueles insólitos encontros – Müller Barone

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Um daqueles insólitos encontros

                                                    Müller Barone

Deve existir algo diferente nesta parte da cidade. Acordo com a ansiedade a mil, duzentos e cinquenta e oito por segundo. Preciso andar, pegar espaço.
Não fui ao tradicional banco da Rua da Cidadania, aquele no qual levei um lero com Lúcifer. Sentei na mureta do estacionamento da farmácia. Olhei para a direita e nada, nem Anjo para tomar um cappuccino, nenhum daqueles duendes ou gnomos que costumam aparecer por aqui (como eu disse, há algo diferente nesta parte da cidade) para uma conversinha. Viro para esquerda e nada, nem o leprechaun, que só vem daquela direção e o papo é sempre muito legal, porque ele traz uísque irlandês ou uma dúzia de Guinness. Nada das fadinhas que falam de amor, moda (‘hiper fashion’, Bill) ou encantamentos. Tudo é só o que nos dizem que existe.
Mas algo além da ansiedade que já se acalmava me dá a impressão que terei visitas. ‘Deixa pra lá, se tiver que vir, virá’.
Pego um cigarro, ainda olhando para a minha esquerda, assim que acendo, uma voz infantil, à direita, surge:
– Esse negócio faz mal.
Sem nem me assustar, já acostumado com esses contatos imediatos, viro e percebo um menino, não mais que dois anos. Como tudo é possível na Fernando de Noronha e adjacências, olho para ele como se fosse algo absolutamente natural um menino de dois anos, sentado ali, literalmente sem pai nem mãe.
– Você é da Bebelândia?
– Não.
– Desconfiei. Aqueles malinhas me aporrinham o dia inteiro, mas sempre no jeitão de fantasmas, saca? Não assim, em carne e osso…e fraldas por baixo da calça.
– É, a mãe está tentando me tirar delas.
Estranhei que ele disse ‘a mãe’, não ‘minha mãe’, como seria natural. Era uma criança, então, deixei para lá. Mas, prestando mais atenção, notei algo conhecido nos olhos que buscavam tudo, como quem estuda o terreno. E o desenho da boca também não me era estranho.
– Tenho a impressão que te conheço de algum lugar.
– Conhece, mas eu conheço mais você do que você eu (bem expressão de criança).
– Sério?
– Não, eu sou criança, criança não é séria, ser sério é coisa de velho com mais de 12 anos.
– Ei, pode parar, sem ofensas. Se 12 é velho, eu estou em coma, então, por isso estou vendo você.
– Não. Mas posso bancar o grande e dizer ‘você é prolixo mental’.
– Ei, você nem estrutura física tem para uma palavra desse tamanho.
– Eu sei, ainda mais que ela tem três sílabas escritas e quatro faladas.
– Cara, nunca pensei nisso. Boa, gostei, parabéns, nanico.
– Viu só? É o ‘x’ da questão que faz isso.
– Pelo jeito você é engraçadinho nos dois sentidos. Quer saber, você é muito criança para ser desse jeito. Relaxe aí, carinha, a vida é um pé no saco, cresça na hora certa. Melhor, nem cresça.
– Eu não vou crescer.
– Todo mundo, infelizmente, cresce. Menos aqueles malinhas lá, que se acham os preferidinhos do Criador e vivem zoando a Cristiane e a Lígia.
– Eu não vou crescer. Porque eu nunca vou parar de sonhar.
– É, sonhar é bom. Às vezes eu sonho.
– Não, você sempre sonha.
– Como é que você sabe?
– Eu te sigo. Vejo como você olha pela janela e percebe mundos diferentes.
– A Lígia diz que isso é flashback de ácido que minha mãe dropava na minha mamadeira para eu ficar calmo.
– E você mamou até os seis anos, no final, escondido atrás da porta para os vizinhos não tirarem sarro.
– Ei, como é que você sabe disso? Aposto que você é aquele Anjo ou o Lúcifer, disfarçados, claro.
– Se eu sorrir, você vai saber que eu sou.
– Vai.
Ele sorriu. Gelei. Notei outra vez a boca, os olhos e, com o sorriso, um furo em cada bochecha, além do arzinho cínico com o nariz levemente empinado como quem diz ‘te peguei’.
– Sou eu!?
– Viu? Vim agradecer.
– Agradecer…
– Agradecer que, apesar de ter me transformado num babaca, quase total, nervosinho e fingindo ser um cubo de gelo, deixou espaço para eu continuar vivo dentro de você e continuar falando com meus amigos que os grandes chamam de imaginários.
– Você continuou aqui?
– Claro. Você acha que essa galera que conversa com você em todos os lugares, conversa com o advogado?
– Ex.
– Certo. Não mesmo, eles conversam com a criança, comigo, que você guardou aí. E, agora, estou assumindo, de novo, o curso das histórias e da nossa história.
Aí me olhou e percebeu que eu estava louco para perguntar algo.
– Pergunte.
– Trecho da bíblia que eu gosto para dizer que crio várias personagens e me encanta. Qual é?
– ‘Meu nome é legião, porque somos muitos’. Fomos expulsos do catecismo, na segunda vez, por causa desse versículo. E, agora, vou indo.
– Já? Queria me conhecer melhor.
– Chega, cansei de falar que nem gente grande. É muito chato. Vou brincar com os “morcego azu”, com as “salamandra rosa”, aí vou tirar uma soneca num casulo de borboleta e, depois, “construi” uma cidade com os “duende” na areia.
Sumiu rindo. Voltei para casa sem ansiedade e, acreditem, pulando amarelinha na calçada. Alguém disse ‘que velho doido’. Sorri e continuei concentrado na amarelinha.

 

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Imensurabilidades – fotos de Maria de Fátima Barreto Michels, poema de Clarice Villac

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Imensurabilidades

o que faz
com que as palavras ditas
tenham ressonâncias
significativas diferentes
pra quem diz
e pra quem escuta?

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o tempo e seus desinventos?
a intensidade das emoções
varia em durabilidade
em função de quais
coisas?

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traços de personalidade,
constituição de caráter individual,
densidades afetivas?

amanhecer4_laguna_m_fatima_barreto_michels

será questão de
amplitude de sentimentos?
pessoas que respiram nas profundezas
e outras que só molham os pés
nas águas da vida?

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poema de Clarice Villac
23.06.2018

imagens: fotos de Maria de Fátima Barreto Michels,
Amanhecer em Laguna, SC, maio 2012.

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Livros e grifos – Müller Barone

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Livros e grifos

. . . . . . . . . . . . . .  Müller Barone

Tenho muita pena de livros sem grifos. Eles são como crianças cujos pais nunca lhes deram um agrado, um beijo, um abraço.
Livros sem grifos são livros que choram, e é um choro tão triste, tão contido que as lágrimas não vertem, vertessem, se tornariam grifos, riscos, asteriscos.
Grifos são retribuições, beijos que eles recebem por terem nos dado algo, são sorrisos e abraços de gratidão.
Livros sem grifos são corpos que vagam por aí sem alma, ou cujas almas sussurram por uma redenção que não depende deles.
Em sebos, os orfanatos de livros, os vemos aos montes, se prestarmos atenção veremos que soltam suspiros dolorosos de pensada inutilidade. Não adianta explicar a eles que seus ex donos é que padecem de uma redenção. Livros sem grifos são crianças que não conseguem entender que os pais recusaram o presente, sentem-se culpados, páginas em branco, sem vida, sem ensinamento, sem amor, sem aventura.
Há quem possa perguntar: ‘E os das livrarias?’ Esses são crianças que aguardam no berçário a chegada dos pais para os levarem para casa. Sorriem tecnicamente, romanceadamente, infantilmente, aventureiramente. Sorriem à espera de se tornarem definitivamente livros, folheados, relidos, riscados e regrifados. Redescobertos a cada leitura.
Um livro sem grifos é um livro lido sem leitura. Ele dormiu na cabeceira, não nos sonhos, não foi apertado contra o peito, não causou aquela pausa que tira dele os olhos e vai buscar além dele, no horizonte que ele aponta, o entendimento que ele traz, como um ritual indispensável de completude entre uma frase e o mundo que ele fez mudar. Tire os olhos de uma grande frase e perceba a mudança de tudo o que você acreditava ser.
Um dia, num sebo, vi um que chorava. Tirei-o da prateleira e a única marca que ele tinha era uma dedicatória, feita de uma filha para um pai. Passei a mão com carinho sobre as suas primeiras folhas e disse: ‘sei o porquê desse teu choro com lágrimas, isso é raro. Aqui há um duplo abandono’.
Fui ao caixa, paguei e saí com ele. ‘Não posso adotar a filha, mas adotei você’. Ele sorriu, acreditem, cheio de luz.
O nome do livro? O Despertar dos Mágicos. O primeiro grifo foi feito já no preâmbulo: ‘O erro dos clérigos foi pintar os anjos com asas. É com as mãos que se chega ao céu.’

 

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do “Princípio de Le Chatelier” – mandala & letras por Clarice Villac

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Princípio de Le Chatelier:

 “Quando um sistema sofrer alguma perturbação externa, o mesmo tenderá a se ajustar de modo a minimizar os efeitos desta perturbação.”

***

Ok, mas é preciso lucidez & sensibilidade para perceber se a Vida pulsará com mais felicidade & intensidade ao incorporar essa ‘perturbação’ como mola abridora de horizontes mais harmoniosos; ou se vale a pena manter o sistema como estava anteriormente…

Muitas vezes, a possibilidade de evolução se abre, e a inércia da rotina não nos deixa perceber o que seriam caminhos de maior plenitude…

E, como já dizia Caetano, “É preciso estar atento e forte…”

 

Clarice Villac, 05.06.2018.

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