O amor é uma droga pesada – Maria Rita Kehl

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O amor é uma droga pesada

                                        – Maria Rita Kehl


Como se eu fosse velha muito velha
pela milésima vez correndo essas estradas
aqui barranco de terra vermelha ali capim-gordura
incendiado ao sol
a casa pobre bucólica só de longe
o gado magro o arame farpado o vira-lata caipira
e eu mulher muito velha
voltando mais uma vez da viagem sem esferas
com minha inútil bagagem de antigos registros
sentimentais
brasileiros.

o amor é uma droga pesada
perde-se a exata dimensão da vida e
o retorno é lento, cheio de falsas visões
cold turkey
me quero de volta e que esses matos voltem a fazer
sentido
sinto falta do mundo sintetizado em sua ordem nos
meus
pensamentos
não esse oco reverberando
mandalas nos ossos do crânio
não a dissolução de todas as certezas
o mundo apenas sua representação
me contendo me dizendo
a que pertenço afinal
o amor é uma droga pesada
e eu uma velhíssima mulher
gozando pela milésima vez a viagem infernal.

Time Waits For No One
The Rolling Stones

imagem: mandala por Clarice Villac

http://csbh.fpabramo.org.br/artigos-e-boletins/arquivo/socialismo-em-discussao/maria-rita-kehl

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Vertigem – microconto de Clarice Villac

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Vertigem

 

“Se cair, do chão não passa.”

Sempre acreditou no ditado, mas nestes tempos de pós-verdade, vive à beira do abismo.

 

Clarice Villac
08.05.2017.

* * * * * * * * * * * *

Escrevi este microconto no ano passado, e enviei para participar do 7º Concurso de Microcontos de Humor de Piracicaba, mas ele não foi selecionado para participar da Antologia, que conta sempre com 100 microcontos.

Nele expresso meu espanto pela dicionarização da palavra “pós-verdade”, que foi escolhida em 2016 como “a palavra do ano” pelos dicionários Oxford.
É com imensa tristeza e consternação que constato hoje, outubro 2018, esta prática da “pós-verdade” se insinuar em todos os cantos, sem pudor; e lateja essa vertigem…
É tempo de investigarmos os princípios, a integridade, o caráter, exercermos a lucidez crítica & sensível com urgência, para tudo!
O futuro da harmonia, da liberdade, da biodiversidade e do planeta dependem disto!

Tão simples compreender isso, como passar todos os dias ao lado de uma plantação de goiabas que recebe doses maciças de agrotóxico, cujas nuvens sufocam e nauseiam, e acompanhar os tristes relatos de incidência crescente de casos de câncer nas famílias dos agricultores e residentes próximos… Vivi, presenciei esta tragédia quando lecionava num bairro rural em Valinhos, São Paulo!

Mas, o que têm agrotóxicos, câncer, agricultura familiar e agroecologia a ver com pós-verdade?
Busque se informar, meu amigo, conheça as propostas e projetos dos candidatos a governar nosso país!

https://brasil.elpais.com/brasil/2016/11/16/internacional/1479308638_931299.html

https://www.oeco.org.br/blogs/salada-verde/servidores-do-ibama-e-icmbio-se-manifestam-contra-extincao-do-mma/

http://midianinja.org/

https://www.facebook.com/MidiaNINJA/

https://www.instagram.com/midianinja/

#Haddad #Haddad2018 #HaddadEManu #HaddadPresidente #EleNão

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Hocus Pocus – Clarice Villac

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☆ Hocus Pocus ☆

E a criança lhe diz:
Ah, vá, me conta uma história!
E você se surpreende…
Revira toda a memória…
Onde está meu faz-de-conta?…
Num flash, o criar desponta
o “Era uma vez” em glória!
.

Clarice Villac
21.08.2018

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Profecia? – Müller Barone

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Profecia?

                    Müller Barone

Por um acidente de navegação, acabei ouvindo a maravilhosa composição de Paulinho da Viola, Sinal Fechado, de 1974. E, de repente, lembrei-me da infinidade de cafés para os quais estou esperando uma resposta. Alguns passam de um ano. ‘Me perdoe a pressa, é a alma dos nossos negócios’. Já não lembro mais a quantidade de vezes que ouvi a frase ‘esta semana está foda’, eu mesmo a disse algumas vezes. Não sei mais quanto tempo faz que alguns (agora, pelo jeito ex) grandes amigos ou amigas nem like no Face ou um simples ‘como você está’ pelo whats são capazes. Menos de um minuto, mas este minuto não existe. Alguns, talvez, só terão tempo quando for tarde demais, vão tomar um café oferecido pela família no nosso velório ou seremos nós a atendermos, enfim, o convite para café. Um último café, literalmente.
Conspiro aqui: a vida é armada assim, para que não tenhamos tempo ou condições para termos empatia, solidariedade, sentido de grupo. Grupos formam comunidades, comunidades são unidades, união evita o controle.
‘Por favor, telefone, eu preciso
Beber alguma coisa, rapidamente
Pra semana
O sinal…
Eu procuro você
Vai abrir…
Por favor, não esqueça,
Adeus…’

Paulinho da ViolaSinal Fechado

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O Saci e o Dia do Folclore (22 de Agosto) – Clarice Villac

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O Saci e o Dia do Folclore

(22 de Agosto)

Estava eu sossegada
pensando na vida minha
e tomando café
Quando, do nada,
escuto uma risadinha
e, pulando num só pé,
eis que me aparece o Saci!

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– Oi, Saci, você por aqui?
– Claro, hoje é Dia do Folclore
e de tudo o que ele colore,
não dá pra ficar quieto num canto,
precisamos espalhar o encanto!

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– Ah, é mesmo, mas vou precisar sair agora…
– Ué, me leve pelo mundo afora,
vou junto com você,
ver o que você vê!
– Mas como farei isso?
Este mundão é um sumiço!

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– Fácil! Sou retrátil, portátil…
– Sim, sei que é um personagem versátil!
E, em animada brincadeira,
o Saci pôs-se a se esconder pela casa inteira,
sumia e reaparecia,
gargalhava, emudecia,
subia e descia…

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Pelas samambaias,
fazia saltitantes tocaias,
projetava variadas sombras pelas paredes,
brincando de assombrar nas redes…

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E foi tanta traquinagem,
molecagem, malandragem…
Vi que ele estava mesmo a mil,
precisava passear todo o Brasil!
– Mas Sacizinho, como faço?
Neste mundão, quase me despedaço…
– Ah, não esquenta não,
vou dentro de um abraço!

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.

Clarice Villac
22.08.2018
(imagens e poema)

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Sementes de Tranquilidade – conto de Clarice Villac, imagens de Müller Barone e Clarice Villac

 

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Paineira com sementes prontas para voar,
Clarice Villac, 11.08.2018.


Sementes de Tranquilidade

Era uma vez uma paineira, com sementes prontas para voar, num céu de agosto azul.

Entusiasmada com essa plenitude, uma passarinha se pôs a cantar.

Mas, nos dias que se seguiram, ventou e choveu muito nas expectativas da passarinha, que ficou confusa e triste, quase sem esperanças…

 

muller_barone_13.08.2018.

Portal, Müller Barone*

.
Ela tinha um corujo amigo velho, de alma, de tribo, de lá de longe dos tempos…

Ao perceber a aflição de sua amiga, ele, que era um mago das imagens, multiplicou, transmutou, transportou a paineira e suas sementes para o Portal da Liberdade Onírica, lá onde as águas da terra se encontram com o fogo dos céus…

 

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Tranquilidade, Müller Barone*

.
E, quase como brincadeira, a paineira sorriu ao constatar a presença rosada da cerejeira centenária em flor… Naturalmente, o balé das sementes se iniciou, as gaiolas dos corações se abriram com suavidade, e todos os pássaros começaram a voejar, cantar, celebrar…

Estavam no Reino da Tranquilidade, o ideograma formado pelo bailado alado se projetava no horizonte, embalado pelos ventos que espalhavam as sementes e assobiavam…

 

_____________________

 *(Resolvi brincar com a tua foto postada no Instagram.
O ideograma, pelo que pesquisei, significa Tranquilidade. Beijo.
13.08. 2018, Müller Barone.)

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Sem palavras – microconto de Clarice Villac

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Sem palavras

Monossilábico, instalou-se no Instagram e instantaneamente se encontrou: voltou à Idade da Pedra, versão rupestre século XXI.

 

Clarice Villac
08.06.2018

 

Microconto selecionado para a Antologia do 8º Concurso de Microcontos de Humor de Piracicaba, 2018.

http://biblioteca.piracicaba.sp.gov.br/site/resultados-8o-concurso-microcontos-de-humor-de-piracicaba-2018/

https://www.facebook.com/bibliotecadepiracicaba/posts/1881201671941296

rupestre

imagem original: pintura rupestre na Serra da Capivara, no Piauí (imagem encontrada na internet); a outra, editada por Clarice Villac.

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