Livros e grifos – Müller Barone

livros_e_grifos_Muller_Barone

Livros e grifos

. . . . . . . . . . . . . .  Müller Barone

Tenho muita pena de livros sem grifos. Eles são como crianças cujos pais nunca lhes deram um agrado, um beijo, um abraço.
Livros sem grifos são livros que choram, e é um choro tão triste, tão contido que as lágrimas não vertem, vertessem, se tornariam grifos, riscos, asteriscos.
Grifos são retribuições, beijos que eles recebem por terem nos dado algo, são sorrisos e abraços de gratidão.
Livros sem grifos são corpos que vagam por aí sem alma, ou cujas almas sussurram por uma redenção que não depende deles.
Em sebos, os orfanatos de livros, os vemos aos montes, se prestarmos atenção veremos que soltam suspiros dolorosos de pensada inutilidade. Não adianta explicar a eles que seus ex donos é que padecem de uma redenção. Livros sem grifos são crianças que não conseguem entender que os pais recusaram o presente, sentem-se culpados, páginas em branco, sem vida, sem ensinamento, sem amor, sem aventura.
Há quem possa perguntar: ‘E os das livrarias?’ Esses são crianças que aguardam no berçário a chegada dos pais para os levarem para casa. Sorriem tecnicamente, romanceadamente, infantilmente, aventureiramente. Sorriem à espera de se tornarem definitivamente livros, folheados, relidos, riscados e regrifados. Redescobertos a cada leitura.
Um livro sem grifos é um livro lido sem leitura. Ele dormiu na cabeceira, não nos sonhos, não foi apertado contra o peito, não causou aquela pausa que tira dele os olhos e vai buscar além dele, no horizonte que ele aponta, o entendimento que ele traz, como um ritual indispensável de completude entre uma frase e o mundo que ele fez mudar. Tire os olhos de uma grande frase e perceba a mudança de tudo o que você acreditava ser.
Um dia, num sebo, vi um que chorava. Tirei-o da prateleira e a única marca que ele tinha era uma dedicatória, feita de uma filha para um pai. Passei a mão com carinho sobre as suas primeiras folhas e disse: ‘sei o porquê desse teu choro com lágrimas, isso é raro. Aqui há um duplo abandono’.
Fui ao caixa, paguei e saí com ele. ‘Não posso adotar a filha, mas adotei você’. Ele sorriu, acreditem, cheio de luz.
O nome do livro? O Despertar dos Mágicos. O primeiro grifo foi feito já no preâmbulo: ‘O erro dos clérigos foi pintar os anjos com asas. É com as mãos que se chega ao céu.’

 

___________________

Mais Artes de Müller Barone :

https://www.facebook.com/MullerBaroneFotos/timeline

https://www.facebook.com/pages/Cogumelos-Voadores/349079145192803?sk=timeline

https://www.facebook.com/Sobre-Cinema-1222029074594666/

https://www.facebook.com/AlegriaMB/timeline

 

Anúncios
Esse post foi publicado em Contos e Lendas, Crônicas, Prosa e marcado . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s