Um daqueles insólitos encontros – Müller Barone

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Um daqueles insólitos encontros

                                                    Müller Barone

Deve existir algo diferente nesta parte da cidade. Acordo com a ansiedade a mil, duzentos e cinquenta e oito por segundo. Preciso andar, pegar espaço.
Não fui ao tradicional banco da Rua da Cidadania, aquele no qual levei um lero com Lúcifer. Sentei na mureta do estacionamento da farmácia. Olhei para a direita e nada, nem Anjo para tomar um cappuccino, nenhum daqueles duendes ou gnomos que costumam aparecer por aqui (como eu disse, há algo diferente nesta parte da cidade) para uma conversinha. Viro para esquerda e nada, nem o leprechaun, que só vem daquela direção e o papo é sempre muito legal, porque ele traz uísque irlandês ou uma dúzia de Guinness. Nada das fadinhas que falam de amor, moda (‘hiper fashion’, Bill) ou encantamentos. Tudo é só o que nos dizem que existe.
Mas algo além da ansiedade que já se acalmava me dá a impressão que terei visitas. ‘Deixa pra lá, se tiver que vir, virá’.
Pego um cigarro, ainda olhando para a minha esquerda, assim que acendo, uma voz infantil, à direita, surge:
– Esse negócio faz mal.
Sem nem me assustar, já acostumado com esses contatos imediatos, viro e percebo um menino, não mais que dois anos. Como tudo é possível na Fernando de Noronha e adjacências, olho para ele como se fosse algo absolutamente natural um menino de dois anos, sentado ali, literalmente sem pai nem mãe.
– Você é da Bebelândia?
– Não.
– Desconfiei. Aqueles malinhas me aporrinham o dia inteiro, mas sempre no jeitão de fantasmas, saca? Não assim, em carne e osso…e fraldas por baixo da calça.
– É, a mãe está tentando me tirar delas.
Estranhei que ele disse ‘a mãe’, não ‘minha mãe’, como seria natural. Era uma criança, então, deixei para lá. Mas, prestando mais atenção, notei algo conhecido nos olhos que buscavam tudo, como quem estuda o terreno. E o desenho da boca também não me era estranho.
– Tenho a impressão que te conheço de algum lugar.
– Conhece, mas eu conheço mais você do que você eu (bem expressão de criança).
– Sério?
– Não, eu sou criança, criança não é séria, ser sério é coisa de velho com mais de 12 anos.
– Ei, pode parar, sem ofensas. Se 12 é velho, eu estou em coma, então, por isso estou vendo você.
– Não. Mas posso bancar o grande e dizer ‘você é prolixo mental’.
– Ei, você nem estrutura física tem para uma palavra desse tamanho.
– Eu sei, ainda mais que ela tem três sílabas escritas e quatro faladas.
– Cara, nunca pensei nisso. Boa, gostei, parabéns, nanico.
– Viu só? É o ‘x’ da questão que faz isso.
– Pelo jeito você é engraçadinho nos dois sentidos. Quer saber, você é muito criança para ser desse jeito. Relaxe aí, carinha, a vida é um pé no saco, cresça na hora certa. Melhor, nem cresça.
– Eu não vou crescer.
– Todo mundo, infelizmente, cresce. Menos aqueles malinhas lá, que se acham os preferidinhos do Criador e vivem zoando a Cristiane e a Lígia.
– Eu não vou crescer. Porque eu nunca vou parar de sonhar.
– É, sonhar é bom. Às vezes eu sonho.
– Não, você sempre sonha.
– Como é que você sabe?
– Eu te sigo. Vejo como você olha pela janela e percebe mundos diferentes.
– A Lígia diz que isso é flashback de ácido que minha mãe dropava na minha mamadeira para eu ficar calmo.
– E você mamou até os seis anos, no final, escondido atrás da porta para os vizinhos não tirarem sarro.
– Ei, como é que você sabe disso? Aposto que você é aquele Anjo ou o Lúcifer, disfarçados, claro.
– Se eu sorrir, você vai saber que eu sou.
– Vai.
Ele sorriu. Gelei. Notei outra vez a boca, os olhos e, com o sorriso, um furo em cada bochecha, além do arzinho cínico com o nariz levemente empinado como quem diz ‘te peguei’.
– Sou eu!?
– Viu? Vim agradecer.
– Agradecer…
– Agradecer que, apesar de ter me transformado num babaca, quase total, nervosinho e fingindo ser um cubo de gelo, deixou espaço para eu continuar vivo dentro de você e continuar falando com meus amigos que os grandes chamam de imaginários.
– Você continuou aqui?
– Claro. Você acha que essa galera que conversa com você em todos os lugares, conversa com o advogado?
– Ex.
– Certo. Não mesmo, eles conversam com a criança, comigo, que você guardou aí. E, agora, estou assumindo, de novo, o curso das histórias e da nossa história.
Aí me olhou e percebeu que eu estava louco para perguntar algo.
– Pergunte.
– Trecho da bíblia que eu gosto para dizer que crio várias personagens e me encanta. Qual é?
– ‘Meu nome é legião, porque somos muitos’. Fomos expulsos do catecismo, na segunda vez, por causa desse versículo. E, agora, vou indo.
– Já? Queria me conhecer melhor.
– Chega, cansei de falar que nem gente grande. É muito chato. Vou brincar com os “morcego azu”, com as “salamandra rosa”, aí vou tirar uma soneca num casulo de borboleta e, depois, “construi” uma cidade com os “duende” na areia.
Sumiu rindo. Voltei para casa sem ansiedade e, acreditem, pulando amarelinha na calçada. Alguém disse ‘que velho doido’. Sorri e continuei concentrado na amarelinha.

 

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